domingo, 15 de abril de 2012

Ciclo da doença



Diz que escrever é terapia,
o que não é mentira,
mas é a muleta padrão
e inveja do drummond.

Jovem, fala dos amigos,
da cidade, dos umbigos,
do amor, da vida boa,
esguichos de coração rasgado,
indícios, traços
do desassossego do pessoa.

A desilusão dos primeiros
grandes amores possessivos
põe o mundo contra a gente,
veneno com pimenta quente
escorrendo mundo próprio adentro,
razão abandonada, impotente,
coração ardendo.

O tempo deixa tudo velho
e mais seco,
coleciona sem entusiasmo
as pedras paradas de João cabral.
A ética tem muitas morais,
o infinito dura pouco.
O sonho não perde jamais
seu  viço enquanto
o corpo levanta da cama
e cumpre o serviço imposto.

No poema da gente
não há vagas
para o desconcerto do mundo.
A gente põe pedra em caminho,
barulho em estrela,
obrigação de ser feliz em lei.
A gente vê carolina na janela,
saboreia a morena tropicana,
é amigo do rei,
super bacana.

Mas põe também a dor
que tenta esquecer que tem,
a palavra que devora
sem que coração diga,
o urubu que pousa na sorte,
a desilusão de cada nova ferida
na obsessão, todo o vai-e-vem,
e diz que está tudo bem
para ser só uma rima,
não uma solução.

Decide que não vai mais escrever,
que escrever é pirraça,
boba e frenética ameaça
quase muda e sem poder
para restituir devido valor,
  Roberto E. Siqueira Jr.      
merecer amor preferido,
viver mundo imaginado,
desconstituir dor.

Aparece um reflexo
de facho de luz na cabeça,
um curto no coração,
a gente descarrega,
invade de novo o mundo de fora
com a nossa tropa trôpega,
a náusea se distrai, a mágoa esfria
a desilusão vira de novo terapia.    

              

                                                                 

Um comentário:

  1. De uma tecnologia sensível! Parabéns pelas analogias!

    ResponderExcluir

*Imagens: Google